sábado, 15 de outubro de 2011

O texto abaixo foi feito como uma atividade do curso ARTEDUCA - Especialização em Arte, Educação e Novas Tecnologias. Trata-se de um comentário crítico ao texto da Professora Maria de Fátima Guerra Souza, "Estratégias de Ensino e Aprendizagem à Distância" - que eu não encontrei na rede para disponibilizar aqui, mas que é um texto-irmão (bem aparentadinho mesmo) desse texto aqui (que é maravilhoso). Ao final de meu comentário, eu deveria elaborar em um parágrafo o "meu" conceito de Educação à Distância (está lá no fim do post).



 “O ensino à distância é um sistema tecnológico de comunicação bidirecional, que pode ser de massa e que substitui a interação pessoal entre professor e aluno na sala de aula, como meio preferencial do ensino, pela ação sistemática e conjunta de diversos recursos didáticos e pelo apoio de uma organização e tutoria que propiciam a aprendizagem autônoma dos estudantes”. (Aretio, 2001).
Impossível não iniciar o comentário a esse trecho sem notar que o autor opta pelo uso da expressão “Ensino À Distância”, em detrimento daquela mais corrente e aceita em nosso idioma e na prática educativa à distância em nosso país, a saber, “Educação À Distância”. Estaria ele versando sobre uma “prática de ensino”, ou melhor, estaria ele buscando direcionar o seu texto especificamente à reflexão acerca dos recursos dos quais podem lançar mão os docentes, sem voltar sua reflexão para a outra extremidade do vetor do processo educativo, o aluno? Fato é que já nas quatro primeiras palavras do texto podemos ver revelado um pensamento que se mascararia sob a trama textual, não fosse nosso conhecimento prévio acerca das questões da Educação à Distância.

Embora Maria de Fátima Guerra Souza minimize essa questão no texto ao qual estamos nos reportando neste estudo, o restante da citação visto a partir desse ponto de vista, isto é, de que o termo “ensino à distância” acaba por atuar no sentido de reforçar a ênfase histórica dada ao papel que tem o professor no processo de ensino/aprendizagem, também nos conduz a aceitação de que, de fato, o pensamento do autor direciona-se para esse caminho, visto que ele enfoca as estratégias organizacionais, tutoriais e recursivas em sua função de agir sobre o aluno, propiciando a ele aprendizagem, reforçando ainda seu caráter sistemático, isto é, metódico, ordenado, intencionalmente direcionado e determinado. Ou seja, embora o autor cite a autonomia do aluno como integrante desse processo, mesmo autônomo esse aluno aparece nesse trecho como um personagem mais coadjuvante do que de fato é o aluno da educação à distância.

Deixando de lado a Análise do Discurso, vamos supor que o autor tenha dado uma pequena escorregadinha em seu rigor acadêmico e estivesse, na verdade, querendo referir-se ao que conhecemos como “educação à distância” quando da elaboração desse texto. Nesse caso, alguns termos muito fortes destacam-se à primeira lida: sistema tecnológico, ação sistemática. O autor não privilegia a questão tecnológica em sua abordagem, embora de fato fique evidente que as tecnologias são o fundamento estrutural desse “sistema bidirecional de ensino”. Ele privilegia, sim, as qualidades estruturais didáticas dessa prática: ela deixa de lado a interação “cara-a-cara” para abrir o processo de ensino(/aprendizagem) a um mundo de possibilidades didáticas (estruturadas, direcionadas) que solicitam o aluno, chamam-no, tornam-no também agente – um agente autônomo.

(Se bem que, caso fizéssemos ao autor essa concessão de interpretar “ensino” como “educação”, também teríamos logo mais de dar-lhe o benefício da dúvida no que se refere ao uso do termo “comunicação” – uma via unívoca, de vai-e-volta, direta e reta, que não sofre a intervenção de ruídos...)
“Educação a Distância é uma forma de ensino que possibilita a auto-aprendizagem, com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados, apresentados em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos diversos meios de comunicação”. (Decreto 2.494, de 10 de fevereiro de 1998).
Já o nosso decreto fala em informação, comunicação, mediação: palavras-chave para definir a forma(-conteúdo) da educação à distância. É, fala dela como uma forma de ensino, mas ok, essa questão já discutimos. Com esses três elementos - “informação”, “comunicação” e “mediação” -organizados, sim, mas talvez não sistematizados (palavra dura) que se faz “educação à distância”. Três elementos caros à Teoria da Complexidade e, também por isso, elementos de jogo: jogar como estar aberto, atento e disponível para o que se apresente a si.

Nesse trecho, as tecnologias não aparecem destacadas como base da prática da Educação à Distância, mas estão implicitamente colocadas como tal. Chama a atenção a ausência da ideia de “construção de conhecimento” em ambas as definições. Pois então que irei utilizá-la na minha definição. Também sinto falta de referências à questão da flexibilização de tempo, espaço e lugar promovidas pela EAD, que constituem um valor fundamental, que lhe atribui a significação social que possui. Essa também vai pra minha lista. Metodologia, ao invés de sistema? É, optarei por essa terminologia. Ah! E por fim falta destacar a questão do... não é protagonismo (esse termo desgastado...) Sim! Da participação do aluno como agente ativo nesse processo. E, por fim, passarei pela colaboração. Logo:
“Educação à distância é uma metodologia de ensino/aprendizagem fundada no uso de tecnologias, especialmente aquelas da informação e da comunicação, que visa à construção de conhecimento por parte de um aprendiz-agente, auxiliado pela mediação de professores e tutores que organizam recursos didáticos de maneira a promover interação colaborativa entre todos os atores desse processo – o que, dadas as características citadas, pode acontecer em espaço, tempo e lugares diversos.” Thaíse Nardim

Minha primeira experiência com SCRIBUS

O arquivo mostrado abaixo é fruto do trabalho final da disciplina "Tecnologias Contemporâneas na Escola 1". A tarefa consistiu na construção de uma revista através da utilização do software livre SCRIBUS, bem como da edição das imagens utilizadas no corpo do documento com o uso do GIMP, que havíamos estudados no decorrer do semestre.O conteúdo de minha revista (que eu chamei de "A Revista", não por pretensão mas pelo trabalho que a danadinha me deu) é composto por textos trabalhados no decorrer do semestre, alguns que inclusive estão disponíveis nesse blog.Para uma primeira experiência, devo dizer que fiquei bastante satisfeita. Porém, como nunca trabalhei com os softwares comerciais que tem a mesma função (como Adobe InDesign), infelizmente não posso tecer comparações.Caso a visualização apresente falhas, favor entrar em contato comigo.A Revista
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P.S.: Eu tirei 10, rs!

Três conceitos imprescindíveis à Educação à Distância



Mediação pedagógica

Comportamento ou atitudes do professor ou tutor que têm em vista facilitar, motivar e incentivar a aprendizagem, colaborando para que o educando atinja os objetivos e metas da disciplina ou projeto. Para isso, o educador organiza e apresenta informações ou temas de forma a auxiliar o aprendiz a relacioná-las, organizá-las, manipulá-las, discuti-las e debate-las com os demais educandos, professores e outras pessoas envolvidas nesse processo. Segundo MASETTO (2009: 146), “a mediação pedagógica coloca em evidência o papel de sujeito do aprendiz e o fortalece como ator de atividades que lhe permitirão aprender e conseguir atingir seus objetivos”.

MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos e BEHRENS, Marilda. Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. Campinas: Papirus Editora, 2009.


Metodologia Colaborativa

O termo colaborativo indica um trabalho em comum (co-laborare) entre uma ou mais pessoas, um processo no qual trabalha-se em função da intersecção de objetivos comuns, compartilhando conhecimentos, aprendizados e processos de produção de saberes. A metodologia colaborativa, pensada dentro do campo da educação, consiste em uma forma de organização do processo de ensino/aprendizagem que promove a colaboração positiva entre os agentes no processo de construção de conhecimento.

BOSSOLASCO, Maria Luisa. La metodologia colaborativa. Disponível em http://pt.scribd.com/doc/50673951/La-metodologia-colaborativa Acesso em 30/06/2011, 23h14.


Matriz Humanizante

Condição fundamental para o estabelecimento de uma relação dialógica dentro do processo de construção de conhecimento fundado em metodologia colaborativa. Trata-se de basear as relações estabelecidas em princípios como a solidariedade, companheirismo e mútua responsabilidade, que implica no estabelecimento de determinadas normas éticas no processo de comunicação e trocas.

LUQUE, Monica G. Dinámicas del aprendizage y de la mediación em aulas virtuales. Uma visión de la perspectiva de la formación humana. Disponível em http://www.educoas.org/portal/bdigital/lae-ducacion/139/pdfs/139pdf2.pdf Acesso em 01/07/2011, 00h15.


sábado, 1 de outubro de 2011

Arte com lixo digital: fazendo música com drives de disquete

E a gente aqui pensando que drives de disquete não servem mais pra nada, não é?

A crescente quantidade de aparelhos eletroeletrônicos descartados é uma preocupação que começou a aparecer nesse começo de século, e tende a intensificar-se, visto que a cada dia as tecnologias evoluem mais rapidamente, tornando nossos gadgets obsoletos mais rapidamente.

Uma pesquisa da empresa Itautec Philco calculou que sejam descartados 3 milhões de computadores todo ano. Só o que eles contêm de chumbo (um metal pesado) em soldas, baterias e circuitos integrados é o equivalente a 1.900 toneladas. Estima-se que até 1999, no Estado de São Paulo, 12 milhões de baterias de celulares já tinham ido para o lixo. O Ministério do Meio Ambiente acredita que, entre 1996 e 1999, tenham sido descartadas, em todo o Brasil, 11 toneladas de baterias. Cerca de 80% delas tinham a combinação de níquel e cádmio, a mais tóxica. (Fonte).

Algumas empresas começam a explorar o mercado do lixo eletrônico/digital, recolhendo esses materiais, separando as matérias-primas e devolvendo-as adequadamente ao cliclo produtivo.

Mas avistando possibilidades para além da questão ambiental, alguns artistas contemporâneos exploram esses materiais tecnologicamente ultrapassados para produzir arte. É o que acontece no vídeo abaixo, em que o artista reproduz o tema do personagem Darth Vader, da série Stars Wars, através da manipulação de dois drives de disquetes.


O autor explica como fazer (mas aviso, não é pra qualquer um): 

"Como isso funciona?
Não é nada novo e é muito simples. O som vem de uma cabeça magnética movido por motor. Para fazer um som específico, a cabeça deve ser movida com uma frequência adequada. O drive de disquetes tem uma interface simples. Para mover a cabeça que você precisa para ativar a unidade puxando a DRVSB0 ou o cabo que você tem e seu conector, e depois o pino STEP faz mover a cabeça na direção do pin DIR. Um microcontrolador ATmega está gerando essas frequências e faz as unidades tocarem a música."

Com o vídeo abaixo dá pra ver as peças se movendo e gerando música - ou melhor, tocando Mozzart!


É uma versão contemporânea/tecnológica de arte com sucata, não é? No youtube podemos achar diversos links relacionados com produções similares, com as mais inimagináveis peças de lixo digital.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tecnologia e Metodologia

O vídeo abaixo, indicação da nossa colega de curso Maristher em seu blog http://maris-arte.blogspot.com/, apresenta de forma bem clara, além de lúdica, uma problemática possível da implantação das tecnologias contemporâneas na escola. Vale a pena ver!


É preciso discutir com profundidade e responsabilidade a utilização dos recursos tecnológicos digitais nos cursos de formação de professores. Assim, mesmo que a implementação desses recursos seja realizada sem critérios, ou que a gestão a faça com a intenção de seguir o modismos e "parecer moderna", os novos educadores estarão preparados para atuar nas brechas possíveis - que sempre existem, dadas as lacunas das leis que regem nossos sistemas de ensino.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sônia Andrade, pioneira da videoarte brasileira.


A artista Sônia Andrade

Estive hoje assistindo aos trabalhos de uma das pioneiras da videoarte brasileira, a artista carioca Sônia Andrade. A mostra “Retrospectiva 1974-1993” está acontecendo no Centro de Artes Hélio Oiticica, no Centro do Rio de Janeiro.

Sônia foi uma das videoartistas mais atuantes no primeiro período da videoarte brasileira, tendo participado das maiores exposições nacionais do gênero, assim como da mostra de videoarte brasileira na Filadélfia (EUA), em 1994.

Chama a atenção o número de trabalhos em que a artista tematiza a própria televisão, geralmente de forma crítica. Como esses trabalhos não estão disponíveis na rede, relato alguns deles para podermos nos apropriar um pouco da obra de Sônia.

"Feijão" (Sem Título), Rio de Janeiro (1975)

Em “Feijão” (na verdade uma obra sem título, popularmente conhecida por esse nome), vemos a artista em uma mesa de jantar, situada em uma varanda que dá vista a uma paisagem carioca, tendo atrás dela uma televisão exibindo uma programação que, pela logomarca exibida no intervalo, sabemos ser da Rede Globo. Enquanto uma tele-série é exibida, a artista como feijão e toma refrigerante. Conforme as situações da série vão tornando-se mais dramáticas, a artista progressivamente envolve-se nesse ato de comer, e vai num crescendo de energia até que, quando vemos, joga feijão sobre a cabeça, sobre as orelhas, mistura refrigerante ao feijão, e conclui jogando a comida toda na tela da câmera que a filma.

Assim narrado o vídeo parece bem mais nonsense do que de fato é. Porém, a situação dramática crescente do episódio, inesperadamente interrompido por um intervalo comercial e os respectivos anúncios que se seguem, são tão bem amarrados à ação da artista que instaura-se uma rítmica em que fica bastante evidente a crítica da artista à inserção abusiva da televisão à vida da família brasileira.

Sem título, Rio de Janeiro (1975)

Já em um outro vídeo sem título, vemos inicialmente no quadro quatro aparelhos de televisão diferentes. A artista entra em cena e liga, um a um, os aparelhos, e depois desliga-os. Novamente, o encontro entre as diferentes programações exibidas conduz-nos a uma sensação de absurdo, causando certo incômodo. Após algum tempo, a artista entra novamente, desliga os televisores, vira-se para a câmera e repete, por muitos minutos, a frase “Desligue a televisão”. O pedido é tão insistente que cheguei a cogitar (por um microssegundo) levantar-me e desligar o belo aparelho de tela plana em que eu via o vídeo. Notei, então, a contradição explorada pela artista: apesar de seu pedido insistente, é o próprio meio criticado que ela utiliza para veicular seu trabalho. A questão, portanto, não estaria no aparelho em si, mas no conteúdo veiculado por ele, bem como na exploração da veiculação desse conteúdo.

Dentre as obras que pude apreciar que tratam da televisão, entretanto, a que mais me afetou foi a intitulada “Intervalo”. Trata-se de uma peça mais lírica, porém sem deixar de lado a crítica que tanto apraz à artista. Neste vídeo, primeiramente vemos um jardim muito belo, gramado, com muitas árvores ao fundo, e sua sonoridade típica. Entra então a artista, pelo lado esquerdo do quadro, empurrando um aparelho de televisão ligado – arrastando-o com dificuldade pelo chão, atravessando o quadro, retirando-se pelo lado direito e concluindo com a saída do fio do aparelho, aparentemente arrancado da tomada. Depois de mais alguns segundos de quadro vazio, vemos novamente a artista, agora carregando um saco branco. Ela deixa sobre o chão um aro que se aparenta a uma calota de carro. Ela vai então construindo um caminho em direção ao fundo da tela (rumo às árvores), com calotas menores, e menores, e menores. Volta uma calota maior, e novamente as calotas deixadas pelo chão vão diminuindo de tamanho. A ação repete-se até que a artista desapareça por entre as árvores ao fundo.

Embora não construa um sentido muito evidente (embora esse “caminho de calotas” possa levar à leitura de um “caminho de pedras”), a ação causa realmente a sensação de um intervalo: uma interrupção, suspensão do cotidiano. Ao mesmo tempo, a palavra “intervalo” é a mesma utilizada para remeter aos comerciais exibidos por entre a programação televisiva (que nada têm de suspensão, de respiro), o que gera a impressão de um contraste verdadeiramente interessante.

 
Screens de três obras Sem Título (1974, 1975 e 1974)

Por fim, concluo com um texto da Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Tecnologia, que trata do vídeo “A morte do horror”, também disponível nessa retrospectiva:

"A Morte do Horror (1981), por exemplo, é uma reflexão metalingüística sobre o próprio ato de enunciação televisual. Nos seus seis episódios brevíssimos, que mais parecem haicais audiovisuais, a tela da televisão nos mostra, antes de mais nada, a moldura de uma outra tela de televisão dentro da nossa. Ao longo desses episódios, a tela vai sendo sucessivamente esvaziada de seus conteúdos habituais, até não restar senão uma infinidade de aparelhos receptores colocados uns dentro dos outros, como nas construções em abismo da heráldica."

O trabalho de Sônia é um belo exemplo de apropriação de um meio tecnológico para exploração crítica do mesmo, numa atitude “integrada” – referindo-me aqui à obra de Umberto Eco, “Apocalípticos e Integrados”, em que os integrados são aqueles indivíduos que, postos frente às inovações tecnológicas, buscam apropriar-se delas e daquilo de positivo que elas podem oferecer.

domingo, 25 de setembro de 2011

Música e direitos autorais na era digital



Johannes Kreidler é um compositor alemão que reside em Berlim. Seu trabalho composicional explora processos assistidos por computador e elementos eletroacústicos. São famosas suas experimentações utilizando o Kinect, sensor de movimento desenvolvido para o videogame Xbox 360, que possibilita ao jogador interagir com o console sem ter em mãos um joystick, isso é, jogar utilizando apenas os movimentos corporais. Nos experimentos de Kreidler, o sensor é programado para produzir música a partir da identificação dos movimentos do compositor no espaço.

O documentário acima – falado em alemão e com legendas em inglês - apresenta uma obra conceitual que envolve performance, música e tecnologia, chamado “Product placements”, produzida pelo compositor alemão em 2008.

Para realizar essa obra, Kreidler inicialmente compôs uma música através da utilização de um software computacional. Essa música, com duração de 33 segundos, é composta por uma colagem de trechos de 70.200 (sim, setenta mil e duzentas!) músicas de outros compositores.

A legislação alemã para os direitos autorais no que se refere às composições musicais prevê que nenhum trecho de obra musical pode ser utilizado como citação em outra composição sem que haja permissão do autor e o pagamento dos devidos tributos ao autor. A instituição que regula o cumprimento a essas leis é chamada GEMA, sigla em alemão para algo como “sociedade de direitos de reprodução musical ao vivo e mecânica” – similar ao ECAD brasileiro.

Feita a composição, Kreidler agendou uma apresentação de sua música, e procedeu à divulgação massiva de seu trabalho. Contratou alguns assistentes e, com eles, preencheu os 70.200 formulários da GEMA, correspondentes à solicitação da cessão dos direitos de cada trecho utilizado na composição.

No documentário podemos ver as pilhas de formulários preenchidos, o trabalho necessário para conduzí-los à sede da GEMA, e a falta de espaço na referida sede para abrigar um tal número de formulários.

O trabalho de Kreidler propõe um questionamento acerca da legislação autoral na era da reprodução digital. Com a extrema facilidade de acesso a faixas musicais proporcionada pela internet, além da multiplicação dos softwares de edição de som – inclusive softwares livres, até que ponto faz sentido mantermos a mesma legislação que operava quando era praticamente impossível encontrar um disco pirata -  e mais difícil ainda manipular suas sonoridades a fim de recriá-lo?

Diferentemente da modernidade, em que a crença numa ruptura total com padrões estéticos anteriores e na possibilidade de criação do “novo” determinava a atuação dos artistas, a estética da dita pós-modernidade caracteriza-se pelo pastiche, pelo refazer, pela apropriação. Tenhamos como exemplo a obra de Andy Warhol, que já nos anos 60 trabalhava sobre reproduções múltiplas da imagem de Marilyn Monroe, por exemplo, trabalhando sobre a imagem original e propondo desde então questionamentos que encontram eco na obra de Kreidler.

Obra de Andy Warhol, em que as reproduções eram realizadas pela técnica da serigrafia.

A obra de Kreidler compõe-se através da combinação e organização de uma série de trechos originais modificados. O trabalho do artista estaria aí em, ao entrar em contato com certos materiais, estabelecer relações, propor jogos, criando uma proposta que faz referências a propostas anteriores.

Kreidler destaca que, como membro da GEMA, não tinha a intenção de onerar o funcionamento da instituição, que acredita ter sua importância na defesa dos direitos do artista da área de música. Entretanto, acredita que pontos como o tamanho da citação utilizada poderiam ser flexibilizados, tendo em vista as características citadas da produção contemporânea.

No mais, as instituições de regulação de direitos de propriedade intelectual e as leis a que elas servem determinaram, ao longo dos anos, certos parâmetros para definir quem é o “dono” de uma ideia. A era digital, porém, na medida em que amplia exponencialmente a produção e circulação de informações, torna o fator de propriedade extremamente complexo. Como determinar hoje quem é o proprietário de uma ideia, sendo que muitas pessoas através do mundo podem estar pensando em coisas semelhantes, visto que podem estar em contato com estímulos muito parecidos?